Recentemente, postei um Reels no Instagram alertando aos cuidadores sobre a importância de ajudar o adolescente a entender que o virtual não substitui o real. E achei que esse tema merecia vir para o blog.
Pouca gente sabe, mas fantasiar é uma característica da adolescência normal e faz bem para o desenvolvimento deste indivíduo. Afinal, é nessa fase que fantasiamos o que queremos fazer quando formos adultos e que tipo de pessoa eu desejo ser.
Essa transição entre o “o que quero ser quando crescer”, que pensamos na infância, para o “que tipo de pessoa eu quero ser”, acontece de forma gradual e é importante que a fantasia permaneça presente, de alguma forma.
Acontece que vivemos em um momento de intensa virtualidade e isso afeta nossos adolescentes. Nem mesmo nós, adultos e cuidadores, conseguimos nos desvencilhar do virtual. Ele faz parte da nossa vida pessoal, profissional, romântica, da vida dos filhos, da saúde…de tudo!
Por já termos passado pela adolescência, conseguimos ter mais facilidade em dividir o virtual do real, mas nossos adolescentes ainda não. Trazer esse adolescente para o mundo real é fundamental.
Como trazer seu adolescente do virtual para o real
Recentemente, ouvi num congresso a seguinte analogia:
“Quando você vai ensinar uma criança a atravessar a rua, primeiro você atravessa junto, de mão dada, até ter segurança de que ela consiga atravessar sozinha, com você ainda olhando do lado de cá da rua. E só depois, com o tempo, ela vai conseguir atravessar uma rua sozinha.”
Na infância, é mais fácil e natural que tomemos esse tipo de cuidado. Mas na adolescência acabamos perdendo um pouco esse olhar atento aos novos passos desse indivíduo que está crescendo.
Mas podemos pegar essa analogia emprestada para entender como trazer nossos adolescentes imersos no virtual para o mundo real. Aqui vão algumas dicas:
1) Mantenha conversas frequentes
“Atravesse a rua de mãos dadas.”
Como conversar com adolescentes é um tema muito frequente no consultório e por isso já escrevi alguns blogs sobre isso, aqui está um deles: “Comunicação com adolescentes: como se aproximar sem invadir?”.
Entre essas dicas, eu ressalto uma fundamental neste caso: busque conhecer esse novo indivíduo.
Não caia no erro de se entristecer ou se frustrar ao sentir que aquela criança “foi embora” e deu espaço para um “estranho” na sua casa. Se você se sente assim, então faça algo sobre: conheça esse “estranho”!
Crie momentos sozinhos com ele, faça perguntas genuínas:
Quais músicas você está ouvindo recentemente? Como está sendo a amizade na escola? E na igreja? No time de futsal?
Identifique como anda a vida real do seu adolescente para começar a fazer perguntas sobre a vida virtual:
O que você está assistindo recentemente que ache que eu vá gostar? Quais redes sociais você mais usa? Tem muitas amizades por lá? Você confia nessas pessoas?
A partir das respostas, você vai estreitar os laços entre vocês e terá um norte do que se atentar para garantir a segurança virtual dele.
2) Não dê um celular para um adolescente sem supervisão
“Tenha segurança de que ele sabe atravessar a rua sozinho”.
Hoje em dia é quase impossível não dar um celular para um adolescente, principalmente para termos como nos comunicar com ele quando ele vai para a escola ou alguma atividade extracurricular. Porém, é necessário dar instruções de uso. “Instruções? Mas eles sabem mexer melhor do que eu!”, você pode estar pensando nisso, mas preciso dizer uma verdade difícil de engolir: nem eles e nem você entende a dimensão de um celular com internet.
Saber configurar o celular, baixar um aplicativo ou ajustar um “bug” são questões técnicas que aprendemos com o tempo. Mas esse adolescente precisa entender que o celular vai além da parte técnica. Jogos on-line e chats de redes sociais são canais para novas conexões com pessoas neste mundo virtual.
Para adolescentes menores de 14 anos, é importante vigiar as salas de bate-papo e educar desde o primeiro uso do celular para saberem que outras pessoas desconhecidas podem mandar mensagens para eles, mas é importante que eles falem com você assim que receberem uma nova mensagem.
Para adolescentes maiores de 14 anos, já podemos notar certa independência e não podemos ultrapassar uma linha de confiança e privacidade, mas isso não significa que já compreendemos todos os períodos – pelo contrário. Supervisione perguntando quais aplicativos ele usa, quanto tempo de celular pode passar ao longo do dia e busque ensinar a como reconhecer mensagens inconvenientes.
Não existe em usar app de controle parental!
Indico a leitura complementar do meu blog: “5 orientações para estabelecer limites saudáveis no uso de telas para crianças”.
3) Caso tenha dúvidas, procure um profissional
Se você não se sente preparado(a) ou não sabe por onde começar a olhar atento, procure um hebiatra ou um psicólogo para entender como agir. A adolescência é uma fase nova, mas que pode ser vivida com mais tranquilidade, tanto pelo dolescente, como pelos cuidadores, se for bem acompanhada.
Sou hebiatra e pediatra, atendo em Campinas na Clínica Amatus e será um prazer receber vocês para um bate-papo. Vamos juntos e juntas garantir a segurança dos mais novos.